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quinta-feira, 5 de maio de 2011

One Day


What are days for?
Days are where we live.
They come, they wake us
Time and time over.
They are to be happy in:
Where can we live but days?

Ah, solving that question
Brings the priest and the doctor
In their long coats
Running over the fields.

"Days", de Philip Larkin

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Volver


É, devagar a gente volta. Deixa de ser tatu-bola, sai do casulo, vira borboleta de novo. Levanta. Cai mais uma vez, talvez. Mas sabendo que "viver é muito perigoso" tudo fica um pouco mais fácil.

Aprendendo ainda que o mundo é uma impermanente bola de neve, então, daí é moleza viver. O cansativo é aceitar a inconstância das coisas. Penoso é mudar a paisagem, como dizem os budistas. Só que, feliz ou infelizmente, precisa ser assim para a trajetória não ser tão dolorosa.

É. O tal bardo do renascimento está aí e vou ver o que ele guarda para mim. Claro que não tão rápido assim. Antes vou continuar enrolada no cobertor quentinho como a casa das lagartas, olhando para o teto, observando o lá fora até criar a coragem necessária para voar por aí novamente.

A imagem acima é da italiana Daniela Volpari, que participará da exposição Scissorhands 20th, em homenagem aos 20 anos do filme "Edward Mãos de Tesoura".

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Bonequinha de Luxo

Em um dia como esse, eu só queria ser igual a Holly e ter um lugarzinho especial no mundo em que me sentisse plenamente feliz e amparada. Sem ninguém perceber minha ausência, passaria algumas horas lá e, depois, renovada, voltaria à vida real. Seria a minha Tiffany.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Joãozito crocodilo

"Quando escrevo, repito o que já vivi antes.
E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente.
Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo
vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser
um crocodilo porque amo os grandes rios,
pois são profundos como a alma de um homem.
Na superfície são muito vivazes e claros,
mas nas profundezas são tranquilos e escuros
como o sofrimento dos homens."

João Guimarães Rosa

domingo, 22 de agosto de 2010

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Mais um para a coleção


Descendo a ladeira do corredor dos quadrinhos da livraria lotada, lá estava ele observando os passantes de canto. Com ar serelepe e os olhos esbugalhados. Num charme dado a poucos que a convenceu levar um exemplar para ver o que, afinal, esse tal de "Scott Pilgrim Contra o Mundo" tinha de tão especial para tamanho burburinho em seu redor na prateleira das novidades.

Uma, duas, três, quatro...cem páginas e ela não conseguia deixá-lo de lado nem só por um instante. Cada olhar blasé que se misturava a qualquer resposta atravessada levava a plateia, digo, a leitora, a gostar mais.

Não demorou muito e o Scott a ganhou completamente, assim como o Vincent, o Jack, a Coraline, o Max, o Snoopy, a Ponyo e a Mary. E ele foi parar, então, na estante mais vistosa dos personagens-fofuras que a gente vê por aí.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Globellu

E lá vai ela, com o coração apertado, desenrolar outro novelo. Torcendo para que, desta vez, a bola cheia de fios desengonçados seja mais macia e traga leveza, como os sonhos. Aqueles mesmos de Saramago, que as pessoas não escolhem, mas, sim, são escolhidas por eles. O desejo? Que sejam todos fresquinhos com sabor de goiabada.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Sábias palavras

"Sempre em movimento o futuro está"

Do mestre Yoda em "Star Wars - O Retorno de Jedi"

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Disfarçando


Enquanto as palavras não me chegam, um trecho do ríspido e verdadeiro "A Obscena Senhora D", de Hilda Hilst.

"...Antes havia ilusões não havia? Morávamos nas ilusões. Ehud, e se eu costurasse máscaras de seda, ajustadas, elegantes, por exemplo, se eu estivesse serena sairia com a máscara da serenidade, leve, pequenas pinceladas, um meio sorriso, todos os que estivessem serenos usariam a mesma máscara, máscaras de ódio, de não disponibilidade, máscaras de luto, máscaras do não pacto, não seria preciso perguntar vai bem como vai etc., tudo estaria na cara..."

domingo, 3 de janeiro de 2010

Frustração


O avião preparava-se para pousar. Enquanto isso, lá bem do alto, arrodeava as nuvens que encobriam São Paulo. No assento da frente um garotinho afoito não parava quieto por um só instante. Grudado na janela observando a paisagem distante, de repente e com um espanhol encantador, ele demonstrou sua frustração, em bom som, ao avistar a cinza cidade:

― Mamãe, o Brasil não é tão bonito como nos sites.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O Grande Encontro

E se Edward Mãos de Tesoura encontrasse com Sweeney Todd - O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet? Talvez fosse assim:



vi aqui.

(clique na imagem para ampliá-la)

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Num dia ensolarado


"...Eu quero a sorte de um chofer de caminhão
Pra me danar por essa estrada, mundo afora, ir embora
Sem sair do meu lugar..."

sábado, 17 de outubro de 2009

Mary and Max

Acordei nessa manhã chuvosa de São Paulo e zanzando num site aqui, outro acolá, achei um presente australiano cinza e colorido, o trailer da animação "Mary and Max", de Adam Elliot. Delicado e charmoso todo.

Para tingir esse dia com um sorriso, assista:

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Mentiram para mim

...mas hoje o sol não apareceu por aqui, seu moço. nem as pedras do caminho. foram todos juntos de mãos dadas, o sol amarelinho e as rochas avermelhadas.

a imagem eu peguei daqui.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Para o sol

E foi assim, a moça abriu o e-mail na noite fria e lá estava a surpresa da amiga que, por algum tempo, preferiu virar tatu-bola para se proteger de alguns perigos da grande travessia. Ela só queria se tornar invulnerável aos dentes dos cães, igualzinho mesmo ao tatu. Mas descobriu que os girassóis existem.

Quase uma oração

"Um dia a gente acorda e percebe que mudou, depois de levar muita porrada e ter os ossos moídos junto aos sonhos.
Um dia a gente acorda e percebe que nem toda mudança precisa ser amarga,
embora o que nos mova quase sempre seja a dor, esta parceira do imprevisto.
Um dia a gente acorda e descobre do lado do avesso um espaço zen, uma espécie de paz interior que nos adula e acaricia,
como se a mãe voltasse a nos pegar no colo.
Neste dia, inexplicavelmente,
decidimos que o melhor a fazer
numa manhã é plantar um girassol
só para ver, dali a um tempo,
sem angústia, dilema ou rejeição,
que a vida dança a dança dos dervixes...
e que a nossa entrega à vida
é um ritual sem hoje nem amanhã.
A felicidade pode ser o ato de movimentar -se
como os girassóis, para lá e para cá,
só pra ver onde começa e onde termina o dia...
sem pressa.
Os acontecimentos não nos pertencem."

de Célia Musilli

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Apenas o Fim?


De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
- vazio - de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?

Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.

De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...

De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver... de aspirina.

De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.

"Resíduo", de Carlos Drummond de Andrade