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sexta-feira, 23 de julho de 2010

Mais um para a coleção


Descendo a ladeira do corredor dos quadrinhos da livraria lotada, lá estava ele observando os passantes de canto. Com ar serelepe e os olhos esbugalhados. Num charme dado a poucos que a convenceu levar um exemplar para ver o que, afinal, esse tal de "Scott Pilgrim Contra o Mundo" tinha de tão especial para tamanho burburinho em seu redor na prateleira das novidades.

Uma, duas, três, quatro...cem páginas e ela não conseguia deixá-lo de lado nem só por um instante. Cada olhar blasé que se misturava a qualquer resposta atravessada levava a plateia, digo, a leitora, a gostar mais.

Não demorou muito e o Scott a ganhou completamente, assim como o Vincent, o Jack, a Coraline, o Max, o Snoopy, a Ponyo e a Mary. E ele foi parar, então, na estante mais vistosa dos personagens-fofuras que a gente vê por aí.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Contando carneirinhos


Via-se que a cama era confortável e quentinha, tanto que só dela olhar para o móvel bocejava e os olhos se fechavam cansados. O som da televisão ao fundo, de um minuto para o outro trazia gritos histéricos da mocinha perdida e os risos constantes da platéia da sitcom. Ela usava um pijama emprestado e se sentia amparada em saber que passando pelo corredor escuro e cheio de retratos pessoas conversavam muito acordadas e alegres.

Não importava que a noite escura e quieta a amedrontava lá fora. Sendo assim, sem se preocupar com os fantasmas que rondavam o quarto quando o silêncio imperava, ela continuou a leitura: "viver é muito perigoso". Virou a página e encontrou algo que a deixou estarrecida. "Sertão. O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado!".

— Ai, eu aqui nesse lugar perdido que nem Deus dá conta! Credo em cruz, valei me. Disparou com a voz trêmula.

Nesse momento já não se ouvia mais o barulho da TV, muito menos os passos e burburinhos das pessoas despertas. Pronto, chegou o momento da famigerada briga com o senhor silêncio e os estalos que só as mais escuras das noites eram capazes de criar. Respirou fundo, fechou o livro, tirou os chinelos e mergulhou na cama.

Esperou dois minutos até se sentir segura para tirar o lençol do rosto. Aos pouquinhos, foi olhando ao redor e não gostou dos monstros que encontrou nas paredes, formados pelas sombras, fossem elas do guarda-roupas, do cabide (esse era o mais horrendo), da mesinha do computador ou da cortina.

Sem ter muita opção, lembrou da tática dos carneirinhos. E lá foi ela: um, dois, três, quinhentos, mil e trezentos, cinco mil oitocentos e dois...até escutar os passarinhos cantando e o mundo todo acordando. Chegou a hora de dormir, sem medo algum. Boa noite.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Frustração


O avião preparava-se para pousar. Enquanto isso, lá bem do alto, arrodeava as nuvens que encobriam São Paulo. No assento da frente um garotinho afoito não parava quieto por um só instante. Grudado na janela observando a paisagem distante, de repente e com um espanhol encantador, ele demonstrou sua frustração, em bom som, ao avistar a cinza cidade:

― Mamãe, o Brasil não é tão bonito como nos sites.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Zé Tristonho


E foi o homem querer ser livre.
Apagou as luzes, fechou a porta do quarto.
Quando acordou, sentiu-se leve.
Mas aquela coisa permanecia, nalgum lugarzinho.
Diziam que era tudo da cabeça. Ele, esperto, nunca acreditou.
Não queria mais frustrações, então, decidiu abdicar dos planos.
Ouviu os ensinamentos das manhãs de sábado e aceitou a impermanência.
Dançou de olhos fechados numa festa animada.
Foi ao cinema sozinho ver um filme de terror.
Porém, o medo, seu grande companheiro da vida toda, continuava lá.
Até que chorou pois decidiu abandonar esse velho amigo estranho.
Criou coragem, pediu dez receitas para o doutor e prometeu ser feliz.


Gravura do Cadjoo. Clique nela e veja mais trabalhos dele.

terça-feira, 31 de março de 2009

Simplesmente Feliz

O olhar era preocupado e os passos apressados. Nos braços, carregava um segredo pesado e extraordinário que fazia sua cabeça doer aos sábados.

Quando perdeu sua bicicleta de estimação sentiu-se plena. Era uma mulher bonita, embora tivesse lá algumas esquisitices, como gostar da palavra "estrambólico."

Era rodeada por culpas e vivia repetindo "me perdoe" a qualquer um. Não acho que tivesse motivos para tanto, em todo caso ela gostava disso.

Não tinha paciência para ouvir música e odiava feijão. Preferia as comidas insossas. Doces? Só de vez em quando.

Raridade era sair ao sol, o sorriso se abria mesmo era para os dias cinzentos e noites chuvosas sem estrelas.
Mas, na verdade, talvez não fosse triste.

Para conhecer mais gravuras do artista plástico Cadjoo, dê um pulinho no Cenas do Crime.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Todo Carnaval Tem Seu Fim


Ao fundo uma música tristonha tocava enquanto ela colova as últimas peças do armário dentro da mala cor-de-rosa. Estava atrasada para pegar o ônibus, mas deu tempo de deixar um bilhete embaixo do copo com flores. Verificou o horário ao mesmo tempo em que seu olhar confirmou que nada ficara para trás. De chinelo no pé e vestido rodado no corpo, desceu as escadas, passou pela pequena sala de jantar e saiu pelos fundos, ligeira tal qual um vento frio. Aquela moça não se importava com o que diziam ser "bons modos" ou coisas do tipo. Na verdade, odiava despedidas como Garfield a segunda-feira. Ela já tinha atravessado a rua quando, lentamente, a porta se fechava e ainda era possível ouvir os ecos da canção pela fresta.

Toda banda tem um tarol, quem sabe eu não toco
Todo samba tem um refrão pra levantar o bloco
Toda escolha é feita por quem acorda já deitado
Toda folha elege um alguém que mora logo ao lado
E pinta o estandarte de azul
E põe suas estrelas no azul
Pra que mudar?

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Mistureba

Aquela Chapeuzinho decidiu, de supetão, ser diferente. Passou pelo Lobo sem medo, deixou de lado sua cestinha e foi passear em outra floresta. Agarrou bem forte a mão de Manuel Bandeira e saiu cantarolando:

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha falsa e demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
- Lá sou amigo do rei -
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

À Beatriz


Demorei até (re)conhecer Beatriz. Já tinha ouvido falar da moça que despertava tantas dúvidas.

Será que ela é moça
Será que ela é triste
Será que é o contrário
Será que é pintura
O rosto da atriz

Numa noite de festa a conheci de verdade. Culpa da Georgia e sua mania de livres associações que me fizeram chorar. Era final de dezembro e me recordo que passei o ano-novo intrigada com a mulher que dançava no sétimo céu. Me perguntava como seria possível ser tão bela e, ao mesmo tempo, tão triste.

Não sei se a Beatriz que inspirou Chico Buarque e Edu Lobo existiu de carne e osso, mas, para mim, ela tem algo do que Marilyn Monroe foi. Não sei se pela beleza desconcertante, se pela sensualidade frágil ou pela tristeza que carregava no olhar. Até hoje fico encucada, tentando descobrir mais sobre essa menina. Vira e mexe me pergunto, cantando:

Será que ela é de louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário
A casa da atriz

E foi em homenagem a ela que batizei esse espaço. Seja bem-vindo à Casa de Beatriz!