
domingo, 15 de fevereiro de 2009
De filha para pai

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
De Carlos Drummond de Andrade
de meus poucos recursos.
Um tanto de madeira
tirado a velhos móveis
talvez lhe dê apoio.
E o encho de algodão,
de paina, de doçura.
A cola vai fixar
suas orelhas pensas.
A tromba se enovela,
e é a parte mais feliz
de sua arquitetura.
Mas há também as presas,
dessa matéria pura
que não sei figurar.
Tão alva essa riqueza
a espojar-se nos circos
sem perda ou corrupção.
E há por fim os olhos,
onde se deposita
a parte do elefante
mais fluida e permanente,
alheia a toda fraude.
Eis meu pobre elefante
pronto para sair
à procura de amigos
num mundo enfastiado
que já não crê nos bichos
e duvida das coisas.
Ei-lo, massa imponente
e frágil, que se abana
e move lentamente
a pele costurada
onde há flores de pano
e nuvens, alusões
a um mundo mais poético
onde o amor reagrupa as formas naturais.
Vai o meu elefante
pela rua povoada,
mas não o querem ver
nem mesmo para rir
da cauda que ameaça
deixá-lo ir sozinho.
É todo graça, embora
as pernas não ajudem
e seu ventre balofo
se arrisque a desabar
Ao mais leve empurrão.
Mostra com elegância
sua mínima vida,
e não há na cidade
alma que se disponha
a recolher em si
desse corpo sensível
a fugitiva imagem,
o passo desastrado
mas faminto e tocante.
Mas faminto de seres
e situações patéticas,
de encontros ao luar
no mais profundo oceano,
sob a raiz das árvores
ou no seio das conchas,
de luzes que não cegam
e brilham através
dos troncos mais espessos.
Esse passo que vai
sem esmagar as plantas
no campo de batalha,
à procura de sítios,
segredos, episódios
não contados em livro,
de que apenas o vento,
as folhas, a formiga
reconhecem o talhe,
mas que os homens ignoram,
pois só ousam mostrar-se
sob a paz das cortinas
à pálpebra cerrada.
E já tarde da noite
volta meu elefante,
mas volta fatigado,
e as patas vacilantes
se desmancham no pó.
Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.
Exausto de pesquisa.
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
O mundo secreto de Caroline

— Desculpe, menininha, me embaralhei com as letras.
Estava curiosa para ver a adaptação de "Coraline" (Neil Gaiman) para o cinema. E, mais uma vez, o trabalho do diretor Henry Selick ("O Estranho Mundo de Jack") emocionou e, por alguns momentos, me fez voltar à ingenuidade da infância. O colorido contraposto pelo ar nebuloso de algumas cenas deu uma pitada a mais de beleza e vida à história de Gaiman.
A Coraline do filme é a mesma do livro, com alguns acréscimos de impaciência, rebeldia e menos gotas de doçura. Porém, continua encantadora e curiosa. Mas confesso que senti falta de um gato mais blasé e rabugento.
— Olá, Coraline — saudou ele sem se virar quando ela entrou.
— Mmm — murmurou Coraline. — Está chovendo.
— É — disse o pai. — Está caindo um pé d´água.
— Não — disse Coraline. Está apenas chovendo. Posso sair?
— O que sua mãe acha?
— Ela disse: você não vai sair com um tempo desses, Coraline Jones.
— Então, não.
— Mas quero continuar minha exploração.
"Coraline e o Mundo Secreto" estreia nesta sexta-feira (13).
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
A ilha

— Filhinha, agora você vai conhecer uma ilha. Está enxergando aquela porção de terra envolta pelo mar bem ali ao fundo?
— Estou, respondeu prontamente.
— Então, aquilo é uma ilha. É para lá que estamos indo.
— Mas, pai, cadê o coqueirinho?
Para ler a matéria sobre a curiosa ilha acima, clique na foto.
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
Mistureba
Aquela Chapeuzinho decidiu, de supetão, ser diferente. Passou pelo Lobo sem medo, deixou de lado sua cestinha e foi passear em outra floresta. Agarrou bem forte a mão de Manuel Bandeira e saiu cantarolando:Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha falsa e demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
- Lá sou amigo do rei -
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
domingo, 8 de fevereiro de 2009
Sobre batatas e músicas

se mueven como
las banderas
A outra coisa foi descobrir que o uruguaio Jorge Drexler é o mesmo cara que compôs "Al Otro Lado del Río", música-tema de "Diários de Motocicleta"(2004), vencedora do Oscar de melhor canção original em 2005.
E foi entre batatas e ao som destas músicas que o domingo, sem chuva, terminou.
sábado, 7 de fevereiro de 2009
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
O indizível mundo de Salinger
Lá pelos meus 13, 14 anos eu li "O Apanhador no Campo de Centeio". O livro, que tinha sido do meu pai, estava todo estropiado e cheio de grifos, o que já me fez ficar mais interessada. O fato é que me encantei pelo jeito como o misterioso J.D. Salinger narrava a vida do jovem Holden Caulfield. Terminado esse, ganhei um presente, era uma outra obra do escritor.
Quando abro o embrulho uma surpresa: "Carpinteiros, Levantem Bem Alto a Cumeeira e Seymor, uma Apresentação". O nome, no duro, como costumava dizer Caulfield, me deixou curiosa e intrigada. Eu mal sabia que a maior surpresa viria algumas páginas à frente.
Se ainda existe no mundo alguém que leia só por prazer - ou até mesmo por acidente -, peço a ele ou a ela, com indizível afeto e gratidão, que divida em quatro partes iguais a dedicatória deste livro com minha mulher e meus dois filhos.
domingo, 1 de fevereiro de 2009
Água o amor não é

Corridinho
O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.
O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.
O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.
Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.
Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é.
Adélia Prado
Clique na imagem e você poderá ver outras tantas igualmente belas, diretamente do Flickr da autora, a designer Anna Cunha.


